RANICULTURA
 
          A  ranicultura  se  iniciou  no  Brasil  na  década  de  30, quando um  técnico  Canadense trouxe alguns casais  da rã Touro Gigante de seu país e iniciou a criação no Estado do Rio de Janeiro. Desde então muita coisa se  modificou, sendo que o Brasil foi o pioneiro na criação racional de rãs.  
          A década de  80  se caracterizou por  um aumento muito grande no   número   de   ranários,   uma  vez  que  a  carne  de  rã  era  muito valorizada,  mas a criação apresentava muitos riscos devido a falta de conhecimento  sobre a   biologia   e  comportamento  do  animal,  além   de  uma   total   falta  de parâmetros   zootécnicos   da  criação,  o  que  levou   muitos   criadores   ao   insucesso ,    inclusive    com    grandes   prejuízos  para   aqueles  que  não dominavam a tecnologia de criação. 
           A  década de  90 se caracterizou  por  uma  redução  no  numero de instalações para a  criação,  más   com   um   aumento  significativo  da produção,  já  que a  produção  média dos ranários  que era de 40 a 100  quilos   por   mês,   passou   para  200  a  300 kg. Esse aumento é atribuído  a  melhorias  nas  instalações, rações mais apropriadas, uso de estufas para a manutenção   da   temperatura,   criação  de  índices  zootécnicos  e  maior conhecimento do animal e de sua criação.
          Instituições como Universidade Federal  de  Viçosa,  Instituto  de  Pesca   de   São   Paulo   e   sem   dúvida,  a  persistência  dos próprios criadores é que  formaram  juntos  o conhecimento  atual da atividade.  
          Mas    este    aumento    de   produção   provocou   as  seguintes implicações;   ranários    trabalhando   no   seu   limite   de produção  e aumento  da oferta do produto.   O   excesso   de   animais  propicia   a  proliferação    de    agentes  patogênicos,   causando   grandes  perdas  correlacionadas   com   problemas  sanitários  e  / ou  má  qualidade da água   de   uso  na  criação  e  o  excesso  de  produção   gerou    maior   competitividade   para   atingir   o   consumidor, alterando as margens de lucro.  
          Com  a  abertura   do  mercado   brasileiro tivemos a entrada de outros produtos  nobres como salmão,  animais silvestres, lagosta, etc. e a carne  de   rã   ganhou  mais  concorrentes   no mercado. Tudo isso obrigou  a  uma   reformulação    na  criação  e  uma  nova  abordagem  nas estratégias  de produção e comercialização.  
          Primeiramente  devo  esclarecer  que  o  "negócio" produção de rãs   não   tornar   ninguém    rico   do   dia   para   a   noite,   como  foi mostrada  em  muitas publicações, mas comparativamente as criações convencionais, ela  possibilita ganhos reais dentro de uma propriedade rural,  servindo  como  boa opção para sua  diversificação.  
         Muitos  técnicos e  produtores   se prenderam  muito  ao  sistema  de criação,  negligenciando  fatores  como  investimento  e  adequação  do   ambiente   de   criação,   fazendo   instalações  de  alto  custo,  não respeitando   as   condições  de   clima   do   local   de   criação   e   não dimensionando    as    diferentes   fases  de  criação   de   forma   a   se  assegurar  de  possíveis frustrações de produção.  
         Para   que   isso   fique   mais  claro,   farei   uma   descrição   dos procedimentos para a implantação de uma criação:  
         Para  se  decidir pela implantação de um ranário, o futuro criador deve  avaliar  suas  condições  pessoais  para  se  iniciar  na  atividade.  Como  a ranicultura  é  uma  atividade  relativamente  nova,  ele  deve  ter  tempo  e paciência   para   estudar   muito  sobre  a  criação,  deve  visitar   o   maior   número  de  ranários   possíveis   e  conversar  com especialistas   absorvendo   todos   os  dados  que  estiver disponíveis. 
          Após  esta  preparação  inicial,  o  ideal  é  passar  algum  tempo  trabalhando  em  uma  criação  pois,  sem o conhecimento  teórico  não  é    possível    o    desenvolvimento,    mas    sem   de  prática   não   se consegue executar as tarefas. Para tudo isso é necessário tempo  e  se  o  pretendente  não  tem  esse  recurso  deve  desistir  desta atividade, pelo menos por este momento.  
         Munido do conhecimento necessário para se tornar um ranicultor, o pretendente irá analisar seus recursos, como:  
         · a   propriedade  deve  estar em  uma  região de clima quente, do contrário terá que investir em estufas ou equipamentos para controle e manutenção da temperatura;  
         · a propriedade deve possuir água em abundância, com qualidade apropriada   para  a  criação  de  organismos  aquáticos,  sendo  que  o ideal é uma  nascente, córrego ou  poço,  sem  risco  de  contaminação  por  agrotóxicos,  despejos  de  fossas  ou  esterqueiras  ou por outros tipos de resíduos;  
          · a topografia da propriedade deve ser relativamente plana, com boa drenagem,  protegida  dos ventos frios do inverno e apresentando  boa insolação;  
          · a  propriedade deve ter luz elétrica, fácil  acesso  e  apresentar infra -estrutura  básica  para os trabalhadores e para o gerenciamento da criação;  
          · a região não deve apresentar restrições dos órgãos ambientais para a criação de rãs exóticas.  
          Atendendo   essas   restrições,  passamos  para a elaboração do projeto de acordo com os seguintes passos:  
          · dimensionar o  criatório considerando as pretenções financeiras do  criador,  o  custo  de  produção,  o  tamanho   do  mercado alvo e as necessidades estratégicas para atingi-lo;  
          · determinar  se  a área disponível para a criação está compatível com o projeto, devendo-se redimenciona-lo  ou  mudar de área no caso de não ser possível executa-lo no local ;  
          · determinar   se   os   recursos  hídricos  irão  suprir  a  demanda  do projeto, devendo ser feito um  projeto complementar para re-uso da água ou para uma nova captação, no caso de ser insuficiente;  
          · determinar  o  investimento   necessário  para a implantação de cada segmento do projeto;  
          · determinar  o  capital   necessário  para   operacionalizar   cada segmento da criação;  
          · avaliar as condições financeiras para implantação  e  produção,
estabelecendo  um  cronograma  de obras compatível  com o fluxo  de  caixa,  mesmo  que tenha de implantar a criação em etapas ou adiar o projeto até um momento mais apropriado.  
          Atualmente  podemos  contar  com  materiais  alternativos  para  a  confecção   das   instalações,   como   o   caso   das  mantas de PVC, moldadas   e   fixadas   sobre   o  solo,    que  apresentam  custos até 3 vezes  inferiores  a alvenaria, material tradicional  para  a  construção  de  ranários.  Essas mantas ainda apresentam as seguintes vantagens sobre a alvenaria:  
          · por  estarem   sobre  a  terra,  não  ficam  geladas no inverno e nem quentes no verão;  
          · não causam ferimentos na pele por não serem abrasivas;  
          · são mais fáceis de higienizar;  
          · não requer mão de obra especializada para instalação;  
          · reduz o tempo de implantação do projeto;  
          · tem boa durabilidade;  
          · devido ao baixo custo e plásticidade do material, as baias podem ser modificadas acompanhando as inovações tecnologias de criação.  
         Dentro  das  estratégias  de  mercado,  a principal  é  a  formação  de  grupos   de   produtores   para  praticarem  a  compra de insumos e venda  de  carne  de  rãs  em conjunto, de maneira a aumentar o poder de  barganha  e  fortalecer  a  capacidade  de  oferta. O maior custo na produção  de  rãs  está  na  engorda,  onde  é  utilizada  uma  ração  de  alto   custo   e  concentramos  muita   mão   de  obra  em  um  pequeno  período    do   dia.   Ainda   não  temos  tecnologia   que   possibilite   o  trabalhador   realizar   as tarefas  de  limpeza,  fornecimento  de  ração  e  selecionar  os  animais  por  tamanho em menor  tempo,  sendo  esta limitação otimizada apenas pela prática, mas a compra de alimentos em maior  volume, proporcionada pela formação de grupos de ranicultores permitem reduções significativas nos custos.  
          A   especialização   também   favorece   a   produção,   com   um produtor  responsável  pelo setor de reprodução, eclosão, girinagem e transformação  e  os   demais   do   grupo  concentrados  em  engordar  rãs.  Quanto  maior  o local de produção de  rãnzinhas,  menor será seu valor pois o custo fixo não é muito alterado e a possibilidade de seleção aumenta.  
         Finalmente  um grande volume de  rãs,  a  baixo custo, possibilita o  abate  com  inspeção  e  até  mesmo  seu   processamento,  regula  a oferta  de  carne  e seus derivados  e torna os preços acessíveis a uma faixa  maior  de  consumidores. O resultado é um  produto  competitivo  que  garanta  a receita do produtor.  
 
 
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